“A música de baile e as marchas orquestrais promovem em maior medida uma resposta de tipo muscular”

Publicado originalmente no portal Opera Mundi

Sergio Parra | Yorokobu | Barcelona

A música é um tipo de droga. Não como as que podemos ingerir sob prescrição médica ou contornando a legislação vigente. É uma “metadroga”, pois é capaz de produzir drogas endógenas, isto é, aquelas que o nosso próprio corpo sintetiza (que até nova ordem estão a salvo de qualquer regulamentação burocrática).

Mas a música é apenas ruído que soa bem. E também existem muitos tipos de música. Arriscando ser elitista, Justin Bieber e Dream Theater não são a mesma coisa. Também não pode dar na mesma o eletrolatino e o blues. Assim, portanto, se diversos tipos de ruído exercem diferentes efeitos em nosso corpo (uma britadeira ou passarinhos cantando ao amanhecer, por exemplo), de igual modo os diferentes tipos de música desencadeiam a produção de várias substâncias em nosso corpo.

A música de baile e as marchas orquestrais promovem em maior medida uma resposta de tipo muscular, enquanto outros gêneros, como o jazz, desencadeiam basicamente respostas do tipo respiratório ou cardiovascular. A música melódica pode sugerir que o mundo que nos rodeia é harmonioso, mas o ruído sugere desordem, incerteza e perigo.

No entanto, essas divisões e efeitos são parcos se os comparamos com a infinita constelação de notas musicais e os microefeitos que produzem, como observa o escritor britânico Anthony Smith em seu livro The Mind [“A Mente”]:

“Aparentemente, a música pode: incrementar o metabolismo do organismo, alterar a energia muscular, acelerar a frequência respiratória – e torná-la menos regular –, reduzir a resistência a diversos estímulos sensoriais, afetar a pressão arterial e, com isso, a circulação sanguínea.”

Segundo um estudo apresentado na Conferência Anual da Sociedade Britânica de Psicologia em 2012 por Alexandra Lamont e seus colegas da Universidade de Keele, quem escuta suas canções favoritas quando pratica um esporte competitivo melhora seu rendimento.

Algumas das músicas geralmente selecionadas no estudo para ampliar a motivação enquanto se pratica exercícios foram: Eye of the Tiger, do Survivor (escolhida por todo tipo de esportista) e Lose Yourself, do Eminem (mais comum entre corredores e jogadores de futebol). Foram também muito citadas canções de Kings of Leon, Florence and the Machine, Pendulum, Blondie, Muse, Rihanna e Black Eyed Peas.

Eu mesmo, se tivesse que escolher um top 10 de canções para não esmorecer, sem dúvida em primeiro lugar estaria Going the Distance, da trilha sonora do filme Rocky: Um Lutador. Como acontecia com o personagem John Cage do seriado de TV Ally McBeal, as badaladas que iniciam essa canção são capazes de insuflar tamanha energia e segurança em si mesmo que o próprio Cage a empregava cada vez que tinha de enfrentar um grande desafio como advogado. É impossível desvincular essas notas musicais das imagens de superação pessoal de Rocky Balboa.

Por isso a música tem tanto poder na hora de modificar nossos níveis hormonais, até o ponto de incrementar substâncias importantes do sistema imunológico. A música suave e tranquila, conhecida como Musak ou música de elevador, por exemplo, é mais eficiente para isso do que o jazz e, claro, mais que o silêncio, segundo um estudo de 1998 de pesquisadores norte-americanos. Já o ruído indiscriminado pode reduzir essa substância benéfica.

Também há dois estudos que sugerem como a música nos cura. Segundo o biólogo Robert Trivers, em seu livro The Folly of Fools [“A Insensatez dos Loucos”, em tradução livre]:

“Há dois experimentos recentes que se destacam dos demais. Quando são injetadas 500 células cancerígenas em ratos que sofreram estresse causado por ruídos noturnos, verifica-se que o avanço da doença é muito mais lento se eles forem deixados escutando música melodiosa durante cinco horas todas as manhãs. Podemos citar um experimento igualmente notável, desta vez com seres humanos. Um grupo de pessoas que fazia um tratamento fisioterapêutico para os brônquios (inalar um medicamento, respirar e tossir) escutava composições de Bach. Esse grupo se recuperou com muito mais rapidez do que o grupo tratado com o mesmo método, mas sem música.”

A música tem especial facilidade para comover nosso coração. De fato, pode sincronizar-se de forma muito precisa com ele, como escreve a autora norte-americana Gail Godwin no livro The Heart: A Personal Journey Through Its Myths and Meanings [“O Coração: Uma Jornada Pessoal Através dos seus Mitos e Significados”, em tradução livre].

De acordo com a notação musical italiana chamada tempo giusto (tempo certo), um compasso uniforme entre 66 e 76 no metrônomo, estamos sintonizando o ritmo de um coração saudável.

Mas o que verdadeiramente emociona são os altos e baixos no tempo. Uma sinfonia de uma só nota se torna entediante para nosso cérebro e, por fim, fonte de desespero. A música tem de ser “ruído rosa”, tal como escreve o filósofo espanhol Jorge Wagensberg em La Rebelión de las Formas [“A rebelião das formas”, em tradução livre]:

“É o gozo da música: resolver a autoafinidade; um tenso conflito entre o que se pode prever e a surpresa. Se a correlação no tempo for baixa demais, a previsão requer um trabalho infinito, para o qual o cérebro se considera insuficiente e se deprime. O ruído branco (totalmente aleatório) primeiro desespera e depois entedia. Se a correlação é alta demais, a previsão requer um trabalho nulo, com o que o cérebro se considera desnecessário e se ofende.”

Quando a psicóloga norte-americana Paula Niedenthal necessitava que as pessoas de suas experiências se sentissem felizes, selecionava peças de Vivaldi e Mozart. Quando necessitava que se sentissem tristes, escolhia Mahler ou Rachmaninov. Por exemplo, o intervalo tonal que constitui a base do hino da alegria incluído por Beethoven em sua Nona Sinfonia expressa prazer ou felicidade universal. Esse intervalo tonal também é empregado em La Traviata, de Verdi, em O Ouro do Reno, de Wagner, na Sinfonia dos Salmos, de Stravinsky.

A música é uma forma de comunicação de baixa intensidade, no sentido de que o receptor é quem interpreta a música e enche de significado e informação o que em essência é somente um punhado de notas musicais (algumas vezes acompanhadas de uma letra simplória e/ou repetitiva, como um mantra).

Mas tanto a música como o canto transmitem emoções. Como demonstraram os psicólogos suecos Hella Oelman e Bruno Loeng, existe uma espécie de gramática tonal universal: pessoas de distintas épocas e culturas experimentam uma gama compartilhada de reações emocionais a intervalos musicais concretos.

Cantar também modifica o cérebro, em particular o lóbulo temporal direito, e são liberadas endorfinas, especialmente a oxitocina, o que se traduz em sensações profundas de felicidade, união e amor. Ou seja, propiciam a comunicação.

É o que propõe Tania de Jong, uma firme defensora dos efeitos terapêuticos de cantar e fundadora do Creativity Australia, um programa orientado para a faixa dos 9 aos 90 anos de idade. Tânia considera que essa forma de se relacionar com os demais permite que pessoas de diferentes religiões, culturas e origens consigam se conectar melhor. Ela explica esse modelo em sua conferência TED intitulada Como Cantar Juntos Muda o Cérebro.

Sendo a música uma droga (ou mais especificamente um estimulante de drogas endógenas), o reprodutor de mp3 pode ser um indutor de ânimos. Algo como um estojo de primeiros socorros com todo tipo de medicamento a ser administrado via auditiva e que moldará vossa mente e, por extensão, a realidade que vos rodeia. Mas atenção ao que disse Woody Allen: “Não posso ouvir tanto Wagner; começo a sentir vontade de invadir a Polônia”.

 

Tradução: Maria Teresa de Souza

Artigo original publicado no site espanhol Yorokobu.