Publicado originalmente no portal 247

Tradução: Adriana Hollenbeck 

Revisão: Maricewne Crus

Pesquisadora de climatologia, Alice Bows-Larkin sabe como conectar a sua pesquisa acadêmica ao contexto político mais amplo, ajudando na criação de políticas públicas motivadas pelas mudanças que ocorrem em nosso planeta.

Através dos seus trabalhos nos setores dos transportes internacionais, sistemas de energia e da extração e queima de carvão, Alice Bows-Larkin é hoje um nome respeitado, inclusive no Climate Change Act do Reino Unido. Após estudar física e modelos climatológicos, ela se uniu ao Tyndall Centre da University of Manchester, um dos mais importantes centros de estudos interdisciplinários do mundo. No momento, ela desenvolve um amplo projeto sobre o futuro da navegação no contexto das mudanças climáticas.

Tradução integral da palestra de Alice Bows-Larkin no TED:

Durante o tempo em que vivemos, nós contribuímos para mudanças climáticas. Ações, escolhas e comportamentos são a causa do aumento da emissão dos gases que provocam o efeito estufa. Eu acredito que este seja um conceito extremamente poderoso Mas ele não tem como fazer com que nos sintamos culpados quando pensamos em decisões que tomamos como para onde viajar, com que frequência e como; sobre a energia que escolhemos usar em nossas casas ou ambientes de trabalho, ou simplesmente no estilo de vida que levamos e apreciamos. Mas nós podemos virar esse conceito de pernas para o ar, e pensar que se já causamos um impacto tão negativo no clima temos a chance de impactar futuras mudanças climáticas às quais teremos que nos adaptar.

 

Alice Bows-Larkin durante palestra no TEDGlobal Londres

Alice Bows-Larkin durante palestra no TEDGlobal Londres

 

Então, nós temos uma escolha. Podemos escolher começar a levar as mudanças climáticas a sério, efetivamente moderar e reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa, e então será menor a adaptação aos impactos das futuras mudanças climáticas. A alternativa é continuar ignorando as mudanças climáticas, mas se nós fizermos isso, estaremos escolhendo a adaptação a impactos climáticos muito mais poderosos no futuro. E não é só isso. Como cidadãos de países com altas emissões per capita, nós estamos também fazendo essa escolha em nome de outros. Mas a escolha que nós não temos é a de nenhuma mudança climática no futuro.

Ao longo das duas últimas décadas, governantes e legisladores têm se reunido para discutir mudanças no clima, e o foco tem sido evitar um aquecimento de dois graus centígrados acima de níveis pré-industriais. Essa é a temperatura associada a impactos perigosos abrangendo uma gama de indicadores que afetariam seres humanos e o meio ambiente. Portanto, dois graus centígrados representam perigosas mudanças climáticas.

Mas essas mudanças climáticas podem ser subjetivas. Se pensarmos num evento climático extremo que pode acontecer em alguma parte do mundo, e se ele acontecer em uma parte do mundo onde exista uma boa infraestrutura, onde as pessoas são asseguradas, o impacto pode ser brusco, ele pode causar desordem, ter um custo. Poderia até causar mortes. Mas se o mesmo evento climático acontecer em uma parte do mundo onde exista parca infraestrutura, ou onde as pessoas não tenham seguro, ou se elas não tiverem estruturas de suporte, então o impacto do mesmo evento poderia ser devastador. Poderia causar a perda de um grande número de moradias, mas poderia também significar um número enorme de mortes.

Este é um gráfico mostrando a emissão de CO2, à esquerda, de indústrias e extração de petróleo, desde o tempo anterior à Revolução Industrial até os dias de hoje. E o que é verdadeiramente assustador é que as emissões vêm crescendo exponencialmente. Se observarmos um período mais curto desde 1950, nós estabelecemos em 1988 o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o Rio Earth Summit em 1992, e avançando alguns anos, em 2009 tivemos o Acordo de Copenhagen, no qual foi estabelecido que o aumento de 2°C teria que ser evitado por questões científicas e para garantir as bases de igualdade. E em 2012, nós tivemos o evento Rio+20. E durante todo o tempo, em todos esses encontros e também em muitos outros, as emissões continuaram a aumentar. E se nós observarmos o padrão histórico da emissão nos últimos anos, e compararmos informação com conhecimento da forma como nos transportamos na economia global, estamos muito mais próximos de um aquecimento global de 4°C, do que estamos de um de 2°C.

Vamos fazer uma breve pausa e pensar sobre esses 4°C na média da temperatura global. A maior parte do nosso planeta se constitui de oceanos. Pelo fato de o mar ter uma inércia térmica maior do que o continente, a média da temperatura sobre o continente será mais alta do que a temperatura no mar. O segundo ponto é que, como seres humanos, não estamos habituados a temperaturas globais medianas. Estamos acostumados a dias quentes, frios, chuvosos, principalmente se viver em Manchester, como eu.

 

 

Então coloque-se no centro de uma cidade. Imagine um lugar no mundo: Mumbai, Pequim, Nova York, Londres. É o dia mais quente que você jamais viveu. O sol está muito quente, só há concreto e vidro ao seu redor. Agora imagine esse mesmo dia, mas a temperatura subiu 10 ou 12 graus naquele dia, durante a onda de calor. É a sensação que vamos experimentar no cenário de aumento global de temperatura de 4°C.

E o problema com esses extremos, e não apenas extremos em temperatura, mas em tempestades e outros impactos, é que nossa infraestrutura não está preparada para esses eventos. Nossas estradas e ferrovias foram projetadas para durar muito e resistir apenas certo número de impactos em diferentes partes do mundo. E isso vai ser um problema enorme. As estações de energia são resfriadas com água a uma certa temperatura para continuarem eficientes. Nossos prédios são projetados para o conforto dentro de uma escala de temperatura. E tudo isso será significantemente afetado num cenário de 4°C mais quente. A infraestrutura atual não resistirá a isso.

Então, se voltarmos a pensar sobre aqueles 4°C, não se trata apenas do impacto direto, mas também impactos indiretos. Se considerarmos segurança de alimentos, por exemplo. A produção de milho e trigo em algumas partes do mundo será 40% mais baixa num cenário de aumento de 4°C, e a de arroz será 30% mais baixa. Isso será devastador para a segurança de alimentos no planeta. Concluindo, os tipos de impacto esperados neste cenário de 4°C de diferença serão incompatíveis com uma vida civilizada no planeta.

Voltemos às trajetórias e aos gráficos de 4°C e 2°C. Seria razoável manter o foco na variação de 2°C? Há vários colegas meus e outros cientistas que dirão que é tarde para evitar o aumento de 2°C. Mas gostaria de compartilhar minha pesquisa em sistemas de energia, alimentos, aviação e também frete, para dizer que ainda existe uma pequena chance de resistir para impedir essa mudança climática “perigosa” de 2°C. Mas o que precisamos é ter controle dos números para decidir o que fazer.

 

 

Se você mantiver o foco nesta trajetória e nestes gráficos, o círculo amarelo mostra que o afastamento da via vermelha de 4°C para a via verde de 2°C é imediato. E isso é por causa das emissões cumulativas, ou o orçamento de carbono. Em outras palavras, por causa dos holofotes e projetores que estão neste momento nesta sala, o CO2 que está indo para a atmosfera como o resultado do consumo de energia dura um longo tempo. Parte dele continuará na atmosfera por um século, talvez muito mais. Ele se acumulará, pois gases de efeito estufa tendem a ser cumulativos. E isso explica um pouco sobre essas trajetórias. Primeiro nos mostra que é a área abaixo das curvas que importa, não onde chegaremos em uma data específica no futuro. E isso é importante porque não importa se nós desenvolvermos uma tecnologia de ponta que vá solucionar o problema de energia no último dia de 2049, bem a tempo de resolver todos os problemas. Porque enquanto isso, emissões de gases terão se acumulado. Portanto, se continuarmos no caminho deste cenário de 4°C a mais, o quanto mais continuarmos nele, terá que ser compensado nos anos que se seguirem para manter o mesmo orçamento de carbono, para manter a mesma área abaixo da curva, o que significa que a trajetória vermelha, fica mais acentuada. Em outras palavras, se não reduzirmos as emissões a curto ou médio prazo, teremos que fazer reduções de emissões anuais mais radicais. Também sabemos que devemos descarbonizar o sistema de energia. Mas se não começarmos a reduzir as emissões a curto ou médio prazo, teremos que descarbonizar ainda mais cedo. Isso é um grande desafio para todos nós.

E nos mostra algo sobre as políticas de energia. Se você vive numa parte do mundo onde as emissões per capita já são altas, isso nos mostra que temos que reduzir a demanda de energia. Isso porque nem com toda a boa vontade do mundo, a infraestrutura de engenharia de larga escala que temos que pôr em prática rapidamente para descarbonizar o lado da oferta do nosso sistema de energia, simplesmente não acontecerá em tempo hábil. Portanto, não importa se escolhermos energia nuclear, ou a captura e armazenamento de CO2, aumentar a produção de biocombustível, ou instalar uma quantidade maior de aerogeradores ou turbinas de ondas. Tudo isso levará tempo. E por ser a área abaixo da curva que importa, temos que nos concentrar em eficiência de energia, mas também em conservação de energia, em outras palavras, usar menos energia. E se assim fizermos, isso também significa que se continuarmos a desenvolver tecnologia de oferta e demanda, teremos menos trabalho se tivermos efetivamente conseguido reduzir nosso consumo de energia, pois precisaremos de menos infraestrutura no lado da reserva.

 

 

Um outro problema com o qual teremos que lutar é o do bem-estar e da igualdade. Há muitas partes do mundo onde o padrão de vida precisa ser melhorado. Mas com sistemas de energia com base em combustível fóssil, conforme economias crescem, cresce a emissão de gases. E agora nós nos vemos reféns do mesmo orçamento de carbono, o que significa que se em certas partes do mundo as emissões crescem, em outras partes do mundo elas precisam ser reduzidas.

Isso significa um grande desafio às nações ricas. De acordo com a nossa pesquisa, se você estiver em um país onde as emissões per capita são altas, da América do Norte, Europa, Austrália, a redução de emissão da ordem de 10% ao ano, começando imediatamente, será imperativa para que exista a chance de evitar o alvo de 2°C a mais. Irei agora contextualizar. O economista Nicholas Stern disse que a redução de emissões de mais de 1% ao ano só estiveram associadas à recessão econômica ou catástrofes. Portanto isso é um obstáculo na questão de crescimento econômico, porque se tivermos nossa infraestrutura de carbono em funcionamento, isso significa que se nossas economias crescerem, as emissões de gases também crescerão. Vou usar um pensamento de um artigo escrito por mim e Kevin Anderson em 2011, no qual dissemos: “Para evitar o perigoso aumento de 2 °C no clima, o crescimento econômico precisa ser trocado, ainda que temporariamente, por um período de austeridade planejada nos países ricos”. Este é um conselho difícil de ser aceito porque o que ele indica é que teremos que colocar mudanças em prática. E isso não é uma questão de mudanças parciais. É uma questão de fazer coisas de outro modo, uma total mudança no sistema, e, em alguns casos, uma questão de fazer menos coisas. Isso se aplica a todos nós, seja qual for nossa esfera de influência. Enviando uma mensagem ao político da sua comunidade, conversando com o chefe no trabalho, ou sendo o chefe no trabalho, ou conversando com amigos e família, ou, simplesmente mudando o estilo de vida. Porque nós realmente precisamos mudar significativamente. Neste momento, estamos escolhendo o cenário de 4°C de aquecimento. Se realmente pretendemos evitar o cenário dos 2°C de aquecimento, não há nada além do momento presente para que algo seja feito. Obrigada.

Bruno Giussani: Alice, basicamente o que você diz, é que a não ser que nações ricas comecem a cortar 10% das emissões por ano, agora, este ano, não em 2020 ou 25, estamos nos encaminhando para o cenário de 4°C ou mais.

 

 

Eu gostaria de saber sua opinião sobre o corte de 70% para 2070.

Alice Bows-Larkin: Não há como evitar os 2°C. Uma das coisas que sempre… esses estudos que indicam o que precisamos fazer, tendem a supervalorizar a rapidez com que outros países podem começar a redução de emissão de gases, então eles fazem previsões heroicas a respeito. Quanto mais fizermos isso… pois são as emissões cumulativas, mudanças a curto prazo que importam. Faz uma grande diferença se um país grande como a China continuar a crescer, ainda que por só alguns anos, isso fará uma diferença em quando eles precisarão descarbonizar. Não podemos dizer quando acontecerá, pois tudo depende daquilo que faremos a curto prazo. Acho que temos uma ideia, mas não damos início às engrenagens que reduzirão a demanda de energia, o que é uma vergonha.

BG: Obrigado pela presença e por compartilhar estes dados.

ABL: Obrigada.