São incalculáveis os prejuízos ambientais causados pelo rompimento das barragens em Mariana, Minas Gerais, no último dia 05. O Rio Doce, que banha os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, sente na pele os impactos da enxurrada de lama que por ele passeia. Se antes, em processo de erosão, o inimigo do rio era silencioso, hoje ele chega fazendo barulho.

“Nunca vi um acidente ambiental que comprometesse o rio de uma bacia hidrográfica em toda a sua extensão. Toda a vida aquática do rio morreu”, lamenta Alexandre Sylvio Vieira da Costa, engenheiro agrônomo e professor adjunto da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, ao site Pensamento Verde. “Aves que dependiam do rio migraram. Peixes prontos para desovar morreram. Toda a piracema foi comprometida. Matou-se não apenas os peixes, mas também milhões de alevinos que seriam gerados. E o pior: existem algumas espécies endêmicas, ou seja, só existem na bacia. Algumas podem estar extintas”, relata.

A bacia do Rio Doce é muito extensa e a sua área compreende mais de 1% do território nacional. A bacia é formada por centenas de afluentes que contribuem de forma significativa para a sua vazão. “O problema ocorreu em uma das cabeceiras, na origem do rio do Carmo, este sim foi afetado de forma extrema e provavelmente nunca mais será como antes, principalmente devido ao excessivo assoreamento com os rejeitos” explica o professor.

Desastre comprometeu a vida aquática

O professor explica que o Rio Doce continuará a fluir em seu leito normalmente, considerando os demais afluentes e parte de sua vida aquática que migrou para estes ambientes. “O problema está neste rejeito de mineração que comprometeu o rio, praticamente eliminando a vida aquática que permaneceu nele, principalmente os peixes, devido à eliminação do oxigênio da água.”

A esperança para a reconstrução, assim como o rio, não deve morrer, segundo Alexandre. “Enquanto há vida, há esperança. Temos que esperar a lama passar e a Samarco conter as outras barragens e os rejeitos que destruíram Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. As áreas deverão ser recompostas paisagisticamente e os distritos reconstruídos em outro local”, diz.

O Rio Doce deve ser monitorado de forma frequente, avaliando as características físico-químicas de seu leito. Será necessário revegetar as áreas erodidas e fomentar laboratórios para criação de alevinos para repovoar o rio. “Para tudo isto, a pesquisa científica será fundamental, auxiliando em todos os processos de recomposição e monitoramento. O Rio Doce está na UTI, mas não morreu”, diz.

O especialista calcula que sejam necessários pelo menos dez anos para que, com a passagem dos rejeitos e a redução do transporte dos particulados pela água, um novo equilíbrio seja restabelecido, pelo processo natural e com o auxílio do homem. “A bacia está viva e o rio terá vida novamente. Em relação ao tempo, é difícil precisar enquanto os rejeitos estiverem na água, em suspensão. Faremos uma análise mais precisa daqui a alguns meses”, reitera.

Metais pesados contaminam o Rio Doce

Depois de varrer do mapa os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo (MG), deixar a água imprópria para consumo e poluir quase todo o Rio Doce, a lama, repleta de resíduos tóxicos e metais pesados, chegou ao Oceano Atlântico e deve atingir uma extensão de 9 km. As consequências do desastre e onde a lama vai parar ainda são respostas desconhecidas.

Em análise laboratorial, foram detectadas diversas partículas de metais pesados como chumbo, alumínio e bário. Alexandre explica que esses componentes podem ser encontrados em toda parte, mas o que deve ser levado em consideração aqui é a concentração.

“A presença desses materiais na água em valores acima dos permitidos pela legislação impedem a captação para abastecimento público. Em duas, das centenas de análises realizadas pelo Instituto de Gestão das Águas de Minas, ao longo do rio, na parte mineira, foram encontradas concentrações acima dos níveis permitidos pela legislação. As demais análises, realizadas nos mesmos locais, não detectaram mais estes elementos em tais níveis”, explica.

Vale lembrar que, na bacia, no médio Rio Doce, existem siderurgias que utilizam metais nos processos de produção. O grande problema detectado no início da pluma de lama no rio foi a presença elevada de arsênio, uma substância tóxica que é encontrada naturalmente naquela região da mineração, mas que, após a passagem da pluma principal, os seus valores caíram para níveis aceitáveis pela legislação.

“Os metais pesados realmente são bioacumulativos, inclusive nos peixes e pode comprometer a pesca na região. Saberemos melhor da situação quando coletarmos amostras do leito do rio, pois os metais pesados, como o nome já diz, são pesados e tendem a acumular no fundo dos rios”, esclarece.

Participação do Governo na recuperação de áreas afetadas

Além de autuar a Samarco, empresa responsável pelas barragens rompidas em Mariana, de forma preliminar, em R$ 250 milhões pelos danos ambientais resultantes do desastre, o governo federal declarou apoio total na recuperação das áreas atingidas, e lançou, em conjunto com os dois estados atingidos, um “plano de recuperação do Rio Doce”, que está em fase de estruturação.