Grupo de Estudo da Desinformação em Redes Sociais formado por pesquisadores da Unicamp revela a disseminação de informações falsas e manipuladas

Gabriela Villen*/Unicamp

“Existe um ecossistema que usa a desordem da informação em seu favor e a provoca ativamente. Ele é intencional, organizado e tem muito dinheiro”. As mensagens que viralizam nas nossas redes sociais não têm a espontaneidade que aparentam. Elas são cuidadosamente construídas, usando estratégias de marketing e contam com uma base de lançamento estruturada, o que possibilita sua difusão rápida e articulada. Desde o início da pandemia este mecanismo tem se utilizado de narrativas de negação da doença, que minimizam sua capacidade de transmissão ou letalidade e prometem curas milagrosas.

Essas são algumas das conclusões do Grupo de Estudo da Desinformação em Redes Sociais que tem como uma de suas coordenadoras a professora Leda Gitahy, do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“Tudo que existe na sociedade aparece nas redes sociais no momento da pandemia. Desde alguém que compra álcool gel para revender até os defensores de políticas ultraliberais, cujo objetivo é a total desregulação das instituições democráticas. Há muitas variações, mas vale destacar as diferentes formas de fundamentalismo, sejam elas religiosas, econômicas ou políticas. O problema de qualquer tipo de fundamentalismo, é que ele só se afirma pela negação do outro e quem pensa diferente se transforma em inimigo. Isso mina a sociabilidade, provocando conflitos mesmo entre as pessoas que mantêm vínculos afetivos fortes. Ao mesmo tempo, surgem muitas redes de solidariedade preservando o afeto e a sociabilidade. É uma disputa”, relata Leda.

Interessado em investigar o caminho das notícias falsas na internet, o Grupo de Trabalho encontrou na pandemia um laboratório perfeito. Em março, o Grupo criou a hotline no WahtsApp (+55 (19) 99327-8829). O canal continua ativo. “O que a gente tem feito é analisar e classificar os diferentes tipos de mensagem para criar categorias que possam servir para produção de ciência de qualidade”, explica a pesquisadora.

EM FASES
Leda Gitahy afirma que a narrativa desenvolvida pelo ecossistema da desinformação tem passado por diferentes fases desde o início da pandemia. A primeira fase teria sido de negação da existência da doença, de sua capacidade de transmissão e de sua letalidade.

“No início, as mensagens diziam que não era nada, que não existia doença ou que era só uma gripezinha. As mensagens eram contra o isolamento e contra qualquer medida de segurança”, relata. Como exemplo dessa fase a professora cita o vídeo do ministro da Defesa de Israel, Naftali Bennett, que circulou no Brasil sem data e com legendas em português. Nele, o ministro minimiza os impactos da Covid-19 e afirma que a única coisa importante é isolar os idosos. “Aquele personagem existe. A fala é verdadeira. Mas no momento em que está sendo divulgada aqui, Israel já estava em lockdown”, pontua.

Conforme explica a pesquisadora, a fala do ministro, mesmo sendo verdadeira, se deslocada do seu contexto, torna-se parte do ecossistema da desinformação. Por isso, ela prefere evitar o termo fake news, por acreditar que ele não é adequado para entender a complexidade do cenário informacional.

“Existem coisas que não são articuladas, que têm a ver com pessoas assustadas, confusas, que gravam qualquer coisa. Mas existem mensagens divulgadas com objetivo de desinformar, com objetivo político, com intenção, em ações claramente articuladas. Distinguir cada uma delas é fundamental para compreender o funcionamento do ecossistema”, afirma Leda.

A segunda fase da narrativa identificada pelo Grupo durante a pandemia é a dos “remédios mágicos”. São tratamentos de todos os tipos, de chás a fármacos, que prometem a cura da Covid-19. “Analisando as mensagens de cura, temos desde misturas meio banais, que não fazem mal a ninguém, até coisas que fazem mal sim”, conta. Um dos protagonistas nessa fase foi o álcool gel, que ora podia ser substituído por vinagre para higienização, ora compunha receitas perigosas que poderiam levar a queimaduras graves.

REMÉDIO DO TRUMP
A Cloroquina começa a se popularizar também nessa fase, circulando no WhatsApp com imagem da versão brasileira do remédio e o slogan “O remédio do Trump”. Leda procura, contudo, afastar teorias conspiratórias, que responsabilizam a indústria farmacêutica pela difusão dessas mensagens. “Não é a ‘indústria que faz Cloroquina’ que está por trás dessas mensagens. Elas estão mais ligadas à ânsia de certos grupos políticos em anunciar a cura”.

A pesquisadora ressalta ainda que o que move o ecossistema da desinformação são sempre tramas de interesses, que envolvem diferentes tendências políticas e interesses comerciais. A defesa de remédios sem comprovação científica como solução para o coronavírus, esteve também vinculada a uma pseudo “defesa da economia”, em sua falsa oposição ao isolamento social.

* Gabriela Villen é pesquisadora do
Laboratório de Tecnologias e Transformações Sociais e desenvolve doutorado no Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp, orientada pela professora Leda Gitahy

 

Um exemplo: vídeo da OMS é manipulado

O mapeamento da circulação das mensagens no WhatsApp tem permitido ao Grupo de Estudo identificar atores e verificar que há uma coordenação na difusão da desinformação. Um exemplo foi a notícia, que circulou em junho, de que a OMS (Organização Mundial da Saúde) teria afirmado que pessoas infectadas pelo novo coronavírus que não apresentassem sintomas não seriam transmissores da doença.

A mensagem trazia um vídeo de três minutos com a chefe da unidade de doenças emergentes da OMS, Maria Van Kerkhove. A notícia ganhou rapidamente as manchetes dos principais sites de notícias no país e no mundo. Ao investigar a origem da informação, o Grupo localizou a notícia na agencia internacional Bloomberg e o vídeo completo que a matéria recortara.

“O vídeo original tinha mais de uma hora e falava o tempo todo sobre a importância das medidas de segurança. Nem a OMS, nem a pessoa que estava dando a entrevista, nem mesmo a pesquisa citada afirmavam que os assintomáticos não transmitiam. Mas o trecho selecionado dava essa impressão e a manchete da Bloomberg era taxativa ‘Who says that’. Esse ecossistema induz os jornalistas a caírem na esparrela”, conta Leda.

A notícia precisou ser publicamente desmentida pela própria OMS.

 

Desatenção e pressa reproduzem erros

Para Leda, a desinformação tem na nossa falta de atenção sua principal aliada. “As pessoas compartilham sem ler, sem assistir até o fim os vídeos, sem refletir sobre o significado daquilo, sobre o que aquilo está querendo dizer. Encaminham rápido e porque combina com sua ideia política no momento. E isso acontece com tendências políticas de todas as cores”, afirma.

Ela ressalta que a ciência não está imune. “Existem cientistas de todos os tipos, negacionistas, que acreditam em ideologia de gênero, que por razões políticas ou econômicas produzem desinformação”.

Enfrentar a desinformação demanda, segundo ela, controlar vieses e produzir ciência e jornalismo baseados em evidências e checagem. “Nós estamos juntando esforços no Brasil e no exterior. Estamos criando uma grande rede para combater algo que é muito forte e tem muito dinheiro. Eu acho que o jeito de a gente enfrentar isso é fazendo ciência de boa qualidade sobre o tema. É fazer ciência e jornalismo de uma forma séria, com calma e atendendo a todas as exigências de comprovação e checagem que demandam. Eu estou convencida que a gente vai sair dessa. Eu não perco a esperança nunca”, concluiu.

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